Mercado questiona viabilidade financeira de solar da AES Tietê

Julian Nebreda, CEO da AES Brasil, explica que estratégia está apoiada em aspectos operacionais e comerciais

Wagner Freire Da Agência CanalEnergia
19/12/2017

De São Paulo

Analistas do mercado financeiro que acompanham as empresas do setor elétrico colocam em dúvida o potencial de retorno financeiro do Complexo Água Vermelha (75 MW; 93,72MWp), viabilizado pela AES Tietê no último leilão A-4/2017. A usina vendeu 19,8 MW médios ao preço de R$ 145,96/MWh, com contrato de fornecimento firmado por 20 anos. O projeto tem investimento estimado em R$ 280 milhões e será financiado totalmente por meio de emissão de dívida (debêntures), com prazo de amortização de 12 anos.

Nas contas de Marcelo Sa, analista de investimentos de utilities para América Latina do banco UBS, e de Maria Carolina Carneiro, analista de investimento do banco Santander, o retorno do projeto não parece estar próximo ao custo de capital da AES Tietê. “A gente não consegue ver um retorno próximo do custo de capital de vocês”, questionou Sa em teleconferência realizada nesta terça-feira, 19 de dezembro. “Queremos saber se de fato tem algum upside… para entender o racional do investimento”, concordou Carolina.

O CEO da AES Brasil, Julian Nebreda, explicou que o projeto proporcionará ganhos em três frentes: (i) em construção, pois terá sinergia com outra obra (Solar Boa Hora) e economia de escala com aproveitamento da capacidade global da AES Corporation para compra de placas e equipamentos; (ii) comercial, pois a companhia pretende antecipar a entrada em operação para meados de 2019, capturando oportunidades no mercado de energia incentivada no ambiente de contratação livre; (ii) e operacional, já que toda a operação das usinas solares será centralizada e automatizada, por meio do novo Centro de Operações de Geração de Energia da AES Tietê (COGE).

Além disso, o projeto tem uma garantia física real 10% acima do que foi comercializado no leilão. “O retorno não é baixo, é um retorno justo”, garantiu Nebreda. “Trata-se de um projeto pequeno, mas muito importante para a gente, pois valida a nossa estratégia de chegar em 2020 com 50% da nossa capacidade de geração composta por fontes não hídricas, com contratos de longo prazo no mercado regulado.”

Ítalo Freitas, CEO da AES Tietê, argumentou que a sinergia de construção é um dos grandes pontos de criação de valor desse novo empreendimento. “Toda manutenção e operação será feita pela AES Tietê.” A usina solar fica a 1 quilômetro de distância da UHE Água Vermelha.

O novo projeto solar ajuda a AES Tietê a cumprir o compromisso com o Governo do Estado de São Paulo de expandir a matriz de geração da companhia. “Achamos que nesse momento os projetos solares e eólicos geram muito valor para a nossa organização, porque fornece contratos de longo prazo no mercado regulado, um dos melhores contratos que existe numa economia como o Brasil. Segundo assunto, é que tanto a fonte a eólica como a solar têm uma correlação negativa.”

Se por um lado a irradiação solar do Sudeste é menor do que a do Nordeste, Nebreda destacou que a economia proporcionada com a conexão das usinas compensa esse diferencial. Um terço dos equipamentos será importado, porém o risco cambial já foi totalmente eliminado.

Nebreda disse que a expansão de hidrelétricas no Brasil seguirá comprometida por conta do risco hidrológico. “O preço não compensa o risco do GSF que temos hoje”, disse ao ser questionado sobre a perda gradual de relevância das UHEs no Brasil.