Energia descontratada é arma da Engie contra alta do PLD e risco hidrológico

Geradora trabalha com 439 MWmédios não contratados em 2017, em razão do cenário de incertezas no mercado livre

Oldon Machado Mercado Livre
26/04/2017

A Engie Brasil Energia conta com a não comercialização de uma parte da sua produção para fazer frente ao cenário de incertezas do mercado no curto prazo. A estratégia adotada pela geradora para este ano prevê a reserva de uma fatia de 9,6% de energia elétrica, em princípio disponível para venda, sem contratação. Isso equivalente a 439 MWmédios livres funcionando, na prática, como uma espécie de proteção às variações bruscas no Preço de Liquidação das Diferenças do mercado spot e também aos impactos cada vez maiores decorrentes do risco hidrológico ao qual as empresas de geração estão submetidas.

"Acreditamos que seja um percentual razoável para a empresa enfrentar os riscos e as incertezas associados ao GSF e ao PLD", avaliou o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da Engie, Carlos Freitas, durante teleconferência com analistas de mercado promovida nesta quarta-feira (26) para detalhar os resultados financeiros trimestrais da companhia. Segundo ele, uma vez o setor conseguindo dirimir essas interrogações regulatórias, a tendência é que essa energia disponível e não contratada seja vendida no mercado livre. A empresa calcula 408 MWmédios descontratados em 2018 e 650 MWmédios em 2019.

A disparada do preço spot nos últimos meses, com a perspectiva de manutenção dessa volatilidade, refletirá na redução da participação do mercado livre no portfólio de contratação da geradora. A estimativa é que, em 2017, 2.351 MWmédios estejam alocados no ambiente livre, equivalendo a 33% da energia total contratada – bem abaixo dos 44% de 2016 e dos 47% em 2015. Apesar de não verificar inadimplência nos pagamentos de consumidores livres, a menor exposição aos riscos do mercado não regulado deve permanecer até 2019, quando a empresa prevê parcelas de contratação iguais de 46% nos dois ambientes.

A capacidade instalada total da companhia somará 7.070 MW ao fim de 2017, já considerando o início de operação da Central Fotovoltaica Assú V (RN - 37,6 MWp) e da Central Eólica Santa Mônica (CE - 18,9 MW). Sem considerar essas duas usinas, a Engie vai aportar R$ 3,5 bilhões na viabilização de outros dois empreendimentos, ambos com operação prevista para o final de 2018: da termelétrica Pampa Sul (RS - 340 MW) e o da fase I do Complexo Eólico Campo Largo (BA - 326,7 MW). Outros cinco projetos em desenvolvimento, entre térmicas, eólicas e solares, totalizam pouco mais de 1.700 MW de capacidade.

Freitas informou que o plano de investimentos da Engie para 2017, na casa dos R$ 2 bilhões, será integralmente financiado com dívida, incluindo parcelas assumidas com aquisições. Com isso, a perspectiva é que o endividamento total da empresa salte dos atuais R$ 3,3 bilhões para cerca de R$ 5,3 bilhões ao final do ano – a dívida líquida no primeiro trimestre somava R$ 1,2 bilhão. O perfil de endividamento da companhia é 70% composto por TJLP, via empréstimos tomados junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Os vencimentos programados para 2017 somam R$ 326 milhões.

O executivo não comentou o imbróglio jurídico travado com a Camargo Correa, que cobra o pagamento de R$ 570 milhões relativos a serviços executados durante as obras de construção da hidrelétrica de Jirau (RO - 3.750 MW) e que, segundo a construtora, não foram pagos pela geradora. Ele se limitou a comentar que o assunto, atualmente tramitando em primeira instância na Justiça Federal do Rio de Janeiro, está sendo analisado internamente por um comitê de conselheiros independentes contratado pela Energia Sustentável do Brasil, responsável pela usina e no qual a Engie detém participação de 40%.