CTG Brasil: país precisa de solução urgente para o GSF

Investimentos ficarão mais caros e ativos a serem privatizados serão desvalorizados enquanto as incertezas sobre o real risco do negócio de geração persistir

Da Agência CanalEnergia 
22/04/2019

O país tem na incerteza do risco hidrológico e no processo de licenciamento ambiental as duas maiores barreiras na atração de investimentos internacionais para a expansão da geração. Enquanto o governo não endereçar uma solução estrutural que realmente atribua o que é risco do GSF, o Brasil enfrentará dificuldades para viabilizar novas usinas. Quem afirma isso é o vice-presidente de geração e comercialização da CTG Brasil, Evandro Vasconcelos. Segundo o executivo, que representa a segunda maior geradora privada que opera localmente, é preciso dar um tratamento diferenciado à energia de reserva, à geração fora da ordem de mérito e às UHEs estruturantes para a correta atribuição do risco hidrológico.

Em entrevista à Agência CanalEnergia ele argumenta que a solução precisa ser dada de forma urgente. Ele cita as expectativas de incremento de nova capacidade de geração que o próprio secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do MME, Reive Barros, apontou durante a edição 2019 do Agenda Setorial, evento realizado no Rio de Janeiro no início de abril. São de 5,5 GW a 6 GW de novas usinas todos os anos caso o crescimento econômico se recupere e o PIB avance 3% ao ano.

“Ainda temos um fôlego, pois há capacidade de geração ociosa, mas como os projetos do setor são de longo prazo, de quatro a cinco anos, precisamos ter contratados cerca de 30 GW para colocar todos os anos até 6 GW em novas usinas em funcionamento”, alertou o executivo. “É um grande desafio em termos de infraestrutura que temos que enfrentar”, acrescentou.

“É um grande desafio em termos de infraestrutura que temos que enfrentar”, Evandro Vasconcelos, da CTG Brasil E essa expansão deverá se dar por duas correntes, a primeira é o das hidrelétricas e a segunda é o desenvolvimento de térmicas a gás natural, usando principalmente as reservas que o país têm com o pré-sal. No caso das usinas hídricas, afirmou ele, o Brasil não pode abrir mão dessa modalidade, mas que esse crescimento deve se dar de forma a respeitar a questão ambiental. Porém, com limitações para os custos que são impostos e surgem ao longo do processo de construção de empreendimentos. Para ele, o país não pode abrir mão dessa fonte, pois ainda há potencial a ser desenvolvido e é sua vocação natural.

Mas, a questão do risco hidrológico é o principal entrave. Isso porque tanto GFOM, quanto energia de reserva e os chamados projetos estruturantes acabam causando o deslocamento das usinas do MRE. Essa tríade, apontou, traz grandes perdas que os geradores atestam não ser o risco com que estão usualmente acostumados a lidar. Por isso, ele defende um tratamento diferenciado para esses itens, fora do MRE e do deslocamento da geração das usinas que compõem o ‘condomínio’ de UHEs.

Inclusive, esse fator ainda pode prejudicar a própria intenção do governo em privatizar a Eletrobras. Ele lembrou que diante de tal nível de incerteza os investidores acabam optando por uma posição mais conservadora ao exigir um retorno de capital mais elevado. “Assim temos de um lado o aumento do custo de capital que desvaloriza o ativo da estatal, se temos a solução isso representa mais atratividade ao investimento tanto na expansão quanto na privatização”, apontou.

A visão do executivo acerca das térmicas a gás é de que o Brasil precisa equacionar a questão desse combustível. Vasconcelos disse que esse insumo tem grande importância para atribuir estabilidade ao sistema com o advento da expansão recente das renováveis intermitentes e até mesmo ajudar as hidrelétricas em um período de necessidade quando é necessária a economia de reservatórios. Para ele, se não houver o desatamento das amarras que impedem a expansão do GN no país isso pode comprometer o próprio desenvolvimento da eólica e da solar.

A solução para o risco hidrológico pode até mesmo ajudar na privatização da Eletrobras, Evandro Vasconcelos, da CTG Brasil. Na busca pela solução, Vasconcelos destacou que a atual gestão do Ministério de Minas e Energia está conduzindo o processo com diálogo importante, inclusive, está agendada uma reunião nesta terça-feira, 23 de abril, para tratar do tema com as associações do setor. Apesar disso, reconheceu que o caminho acabará sendo trilhado, na esfera legal, por meio de legislação própria com todo o rito do Congresso Nacional. Mas mostrou esperança de que o tema avance pela presença de parlamentares que já estiveram no MME como o senador Eduardo Braga (PMDB-AM).

No final das contas o que se busca, disse ele, é a alocação correta dos custos desses itens que deslocam o risco hidrológico apontados há pouco. “Cada agente do setor afetado deveria pagar o benefício que obteve, essa é a racionalidade na alocação de custos e de preços que precisamos ter”, definiu.

Reformas e modernizações Uma das usinas que a CTG Brasil detém a concessão, a UHE Jupiá (SP/MS, 1.551 MW), completou 50 anos de operação comercial e vem passando por um extenso processo de modernização ao lado da UHE Ilha Solteira (SP/MS, 3.444 MW). Essa ação que deverá custar R$ 3 bilhões é apenas um retrato do que ocorre no país. Segundo Vasconcelos, há cerca de 60 GW em ativos de geração que precisam acelerar ações de reformas e manutenção por já terem excedido a sua vida útil.

Para ele, o marco regulatório está adequado a essas ações. A questão é a proximidade do final do contrato de muitas dessas centrais de geração que trazem indefinição quanto ao reconhecimento desses investimentos. Para os contratos renovados há a previsão de remuneração dos investimentos, mas para aqueles com o contrato vencendo, alertou, os operadores retardam os investimentos por não terem a certeza de que ficarão com as usinas.

“No nosso caso estamos começando a segunda fase da renovação das usinas no Paraná, as máquinas estão performando bem e agora vão ficar mais 40 ou 50 anos para o país”, comemorou ele.

Aliás, sobre o futuro da empresa no país, Vasconcelos limitou-se a afirmou que a meta da CTG Brasil é crescer seja por meio de leilões ou de aquisições. Todas as fontes estão no radar, podendo ser via parceria que mantém com a EDP no Brasil ou sozinha, mas sempre em renováveis. No momento, disse, é difícil dizer como se dará esse movimento da empresa pois as oportunidades ainda não estão claras. Ele lembrou da indefinição sobre como se dará o processo da própria Eletrobras ou da inclusão de usinas nos leilões, bem como outros ativos à venda. “A nossa alternativa é crescer de acordo com as oportunidades que surgirem”, finalizou.