Carlos Evangelista, da ABGD: Postergação das mudanças das regras para GD

Em entrevista exclusiva, presidente da entidade falou sobre a revisão da REN 482, as novas tecnologias e as oportunidades para o mercado brasileiro de geração distribuída. Executivo participa do 16º Enase que acontece nos próximos dias 28 e 29 de agosto, no Rio de Janeiro

Da Agência CanalEnergia 
08/08/2019

O serviço de geração distribuída é algo que está ao alcance de toda a população, inclusive da camada mais pobre, disse o presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), Carlos Evangelista. Para o executivo, a GD não é um serviço exclusivo da elite da sociedade. “Não é um produto exclusivo para classe A, pelo contrário. No modelo consórcio, cooperativa, qualquer cidadão pode ter um sistema de GD. A modalidade de locação também permite que um consumidor alugue um sistema e pague um custo menor do que as tarifas convencionais de energia”, disse o executivo, em entrevista exclusiva para a Agência CanalEnergia.

Evangelista pede que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) só mude a regra para geração distribuída quando esse mercado alcançar 5% da matriz elétrica. “A geração distribuída oferece diversos benefícios para o consumidor, o meio ambiente e o Sistema Interligado Nacional (…) Já o impacto gerado no mercado das distribuidoras é irrisório, pois a geração distribuída corresponde a 0,05% da matriz elétrica brasileira”, defendeu. O executivo ainda falou sobre as novas tecnologias que vão fortalecer o mercado de geração distribuída no Brasil, entre outros assuntos.

ABGD participará da 16º do Encontro Nacional de Agentes do Setor Elétrico (ENASE), promovido pelo Grupo CanalEnergia/Informa Markets e 20 associações do setor, a ser realizado nos dias 28 e 29 de agosto, no Rio de Janeiro. Neste ano, os agentes também terão a oportunidade de participar do ENASE Gás e debater o futuro do mercado de gás natural no Brasil. A seguir, os principais trechos da entrevista com a ABGD:

Agência CanalEnergia: A revisão da REN 482 é de fato o assunto de maior importância para o mercado de geração distribuída. Quais as expectativas da associação sobre os desfechos desse processo?

Carlos Evangelista: A expectativa da ABGD é de que a revisão venha para modernizar a norma, com o objetivo de beneficiar os 83 milhões de consumidores que podem produzir a própria energia a um custo mais baixo. Também esperamos que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aja no intuito para colocar o Brasil no time dos países que possuem entre 5% a 10% de seus consumidores produzindo energia e colaborando com a sociedade.

A geração distribuída oferece diversos benefícios para o consumidor, o meio ambiente e o Sistema Interligado Nacional (SIN). Pode-se destacar a maior disponibilidade de energia; a redução da emissão de CO²; a geração de empregos; o empoderamento dos consumidores; e a redução de perdas de energia nos sistemas de transmissão e distribuição. Já o impacto gerado no mercado das distribuidoras é irrisório, pois a geração distribuída corresponde a 0,05% da matriz elétrica brasileira. A proposta da ABGD é de que as regras de remuneração do fio sejam alteradas apenas quando a capacidade total instalada corresponder a 5% da matriz. Só então, haveria possibilidade de impactar os outros consumidores.

O cálculo proposto pela ANEEL tem o objetivo de precificar todos os custos e benefícios da geração distribuída e escolher uma alternativa com melhor equilíbrio. A ABGD considera que as vantagens proporcionadas pela geração distribuída são mais significativas do que o impacto causado pela compensação de energia no mercado das distribuidoras e nos seus demais consumidores. Desejamos que o equilíbrio do sistema seja mantido de forma isonômica, permitindo que todos os envolvidos sejam remunerados de forma justa, equilibrada e proporcional ao benefício que trazem para o Sistema de Compensação de Energia.

Agência CanalEnergia: Quais são as tendências tecnológicas que estão surgindo nesse mercado?

Carlos Evengelista: Como tendências no mercado de geração distribuída, podemos citar as baterias e os sistemas off-grid avançados, que estão se modernizando e poderão deixar muitas casas desconectadas da rede. Também há as smarts grids, ou seja, redes inteligentes, que vão impactar muito a área de geração distribuída permitindo um controle de informações maior e mais rápido de todo o sistema. A tecnologia blockchain, que funciona como um livro digital para registro de transações, traz agilidade e segurança para negociações feitas na rede. E por último, também podemos incluir a conexão com velocidade 5G, que vai tornar as comunicações tão rápidas que, em tempo real, vamos conseguir saber, em qualquer lugar, o consumo de energia de cada equipamento, permitindo um planejamento muito melhor do sistema.

Agência CanalEnergia: Ter um painel solar é mais um item crítico em uma residência ou comércio. Quais os cuidados que o consumidor precisa considerar ao decidir pela geração distribuída?

Carlos Evangelista: Para instalar um painel solar eficiente para a geração de energia, com a durabilidade característica desse produto e com toda a segurança necessária, recomendamos que o consumidor procure uma empresa séria, certificada, capacitada e competente para proporcionar a melhor solução, em relação a custo-benefício, para sua residência, comércio ou indústria. Se a empresa for associada a alguma entidade do setor, melhor. O que não recomendamos é escolher uma empresa inexperiente. O consumidor também deve observar suas características de consumo para optar pela fonte mais indicada, porque a geração distribuída pode ser feita com diversas fontes energéticas, e definir a quantidade de geração necessária. Com esses dados e com as últimas tarifas de energia da concessionária em mãos é possível avaliar o projeto mais vantajoso.

No mercado de geração distribuída, todas as fontes de energia são importantes dentro de suas particularidade e especificidades.

Agência CanalEnergia: O que fazer para que outras modalidades como mini usinas hidrelétricas, biomassa, biogás e eólicas também tenham participação relevante no mercado de GD?

Carlos Evangelista: No mercado de geração distribuída, todas as fontes de energia são importantes dentro de suas particularidade e especificidades. Não podemos ignorar nenhuma delas. A solar fotovoltaica é a mais utilizada hoje, mas é necessário criar facilidades para as outras fontes, que possuem maior complexidade para serem instaladas. A energia solar fotovoltaica pode ser conectada ao sistema de forma mais simples, por ser modular e leve. Mas, as outras fontes renováveis podem trazer vantagens para determinados perfis de consumidores. Seria interessante pensar em maneiras de facilitar a conexão de pequenas usinas a biomassa e CGH’s , pois não são intermitentes e possuem capacidade de geração bem maior.

Agência CanalEnergia: Como fazer para que os sistemas de geração distribuída alcancem um custo compatível com a renda do brasileiro médio? Isso sempre será um produto para a classe A?

Carlos Evangelista: Os sistemas de geração distribuída atuais já permitem que a energia produzida por eles seja até 20% mais baixa do que a fornecida pelas concessionárias. Em alguns casos, essa redução pode chegar a 30%. Não é um produto exclusivo para classe A, pelo contrário. No modelo consórcio, cooperativa, qualquer cidadão pode ter um sistema de GD. A modalidade de locação também permite que um consumidor alugue um sistema e pague um custo menor do que as tarifas convencionais de energia. O acesso é para todas as classes sociais, os programas da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, conseguiram implementar a GD.