Avanço global das renováveis deve mudar força geopolitica

Petróleo deverá atingir o pico de consumo em 2025 e iniciar uma curva declinante nas próximas décadas alterando a geografia lideres energéticos

Da Agência CanalEnergia 
18/01/2019

DE SÃO PAULO (SP)

Mudanças fundamentais no setor elétrico estão tomando forma no setor elétrico de todo o mundo e irá afetar diretamente quase todos os países ao ponto de levar a amplas consequências geopolíticas. Essa é a principal conclusão de um estudo realizado pela Comissão Global de Geopolítica de Transformação da Energia, e lançado pela Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês) sob o título “A New World: The Geopolitics of the Energy Transformation”. A publicação destaca que enquanto as fontes renováveis continuarão a expandir sua presença global superando, por volta de 2050 o uso do petróleo, os combustíveis fósseis devem chegar ao seu pico em 2025 e iniciar uma curva de declínio depois de dois séculos de uso. Essa perspectiva de mudança está apoiada no fato de que os custos das renováveis cai significativamente, mais do que qualquer outra fonte. Dentre as características que levarão à mudança apontada está o fato de ser descentralizada, diferentemente dos combustíveis fosseis, que atribuíam aos países detentores das reservas maior poder sobre aqueles que dependem de comprar esses energéticos. Essa redução de custo, inclusive, destaca o estudo, já coloca as fontes em um mesmo pé de igualdade quando se avalia a competitividade.

Além disso, o avanço das novas tecnologias viabiliza cada vez mais a penetração de veículos elétricos, climatização, eficiência energética, digitalização da rede e armazenamento abrem mais espaço para as renováveis. Essas tendências, aponta, estão criando um momento irreversível para a transição energética. As fontes eólica, solar e outras renováveis estão liderando uma quebra de paradigma ainda mais que contribuem com a redução da emissão de gases de efeito estufa e a poluição atmosférica.

Outra característica comparativa entre as duas formas de geração é que a centralizada tende a concentrar nas mãos de poucos os seus benefícios financeiros. No decentralizada, por sua vez, os consumidores têm a oportunidade de ser mais ativo e poder de escolha, bem como de dividir esses benefícios, incrementando o fator social dessa forma de produção de energia. Como consequência desta atratividade, lembra o estudo, desde 2016 o setor de energia tem atraído mais investimento que o segmento de exploração e produção de óleo e gás, que tradicionalmente dominavam os aportes em energia em todo o mundo. Esse, destacaram os autores, é um reflexo do que vem ocorrendo com a tendência de eletrificação da economia global. Esse comportamento vem na esteira de tendências que norteiam a expansão das renováveis como custos declinantes, maior conscientização quanto a poluição e mudanças climáticas, as metas para energia renovável adotadas em todos os continentes, a inovação tecnológica, ação das empresas, investidores e resposta à opinião pública.

Com isso, líderes políticos e empresariais de todo o mundo apontaram as implicações geopolíticas de longo alcance de uma transformação do setor de energia impulsionada pelo rápido crescimento das energias renováveis nesse relatório. A conclusão é de que as consequências de uma nova era da energia podem ser tão profundas quanto as que acompanharam a mudança da biomassa para os combustíveis fósseis dois séculos atrás. Essas mudanças incluem mudanças na posição relativa dos estados, o surgimento de novos líderes de energia, atores energéticos mais diversificados, mudanças nas relações comerciais e o surgimento de novas alianças.

O relatório apresentado analisa as implicações geopolíticas da transformação global de energia impulsionada por renováveis. O trabalho teve duração de dez meses, envolvendo quatro reuniões realizadas em Berlim (Alemanha), Oslo (Noruega), Reykjavik (Islândia) e Abu Dhabi (Emirados Árabes), respectivamente, bem como consultas a líderes empresariais, académicos e pensadores políticos. É informada por uma série de documentos de base elaborados por especialistas nas áreas de energia, segurança e geopolítica. A comissão conta com a participação da brasileira Izabela Teixeira ex-ministra do Meio Ambiente no país.

Uma recomendação é a de que os países devem se preparar para as mudanças futuras e desenvolver estratégias para melhorar as perspectivas de uma transição suave. Ao mesmo tempo, continua, a transformação de energia gerará novos desafios. Um dos mais claros é que os países exportadores de combustíveis fósseis podem enfrentar instabilidade se não se reinventarem para uma nova era da energia, lembrando que empesas petroleiras já se movimentam em direção a essas fontes de geração.

Na avaliação da comissão, uma rápida mudança dos combustíveis fósseis poderia criar um choque financeiro com consequências significativas para a economia global, pois, trabalhadores e comunidades que dependem de combustíveis fósseis podem ser atingidos adversamente. E ainda, aponta que novos riscos podem surgir em relação à segurança cibernética e novas dependências de certos minerais.