Otávio Rezende, especialista: novo governo vai provocar mudanças no setor

Ex-presidente do Conselho da Abiape acredita que nova cúpula do MME tem olhar para autoprodução e quer mais ações voltadas para o longo prazo

Pedro Aurélio Teixeira Artigos e Entrevistas
16/01/2017

Vendo o ministério de Minas e Energia com disposição para investir em autoprodução e o financiamento como desafio para todo o setor elétrico, Otávio Rezende, que em dezembro o deixou a presidência do Conselho de Administração da Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia, conta em entrevista à Agência CanalEnergia que fontes renováveis como a solar e a eólica podem ocupar um lugar na autoprodução e que o investimento na modalidade é antídoto para conter a alta dos custos com energia. Rezende - que foi um dos idealizadores da associação e ocupou a presidência da Votorantim Energia de 2002 a 2015 - recorda no começo da entrevista que a fundação da associação veio da necessidade de se criar um meio de comunicação com o governo para que fossem mostrados os benefícios dos investimentos em autoprodução. "Foi criado um canal e o governo entendeu", conta.

Rezende pede evolução na questão dos riscos e sinais para ações de longo prazo. “Estamos vivendo uma época que todo mundo está variando a manchete da semana e quando você está falando de ativos intensivos de capital você tem que pensar na manchete daqui a cinco, dez anos”, avisa.

Agência CanalEnergia: Como surgiu a ideia de criar a Abiape? Otávio Rezende: Ela surgiu pela necessidade de que existia da indústria de aumentar a sua geração própria, de criar um canal que pudesse falar permanentemente com o governo como um grupo de investidores. Na época, precisávamos clarear algumas regras, o que seria bom e incentivar ainda mais. Nada mais foi do que mostrar ao governo que "não estamos aqui pedindo energia mais barata, mas apenas a oportunidade de ter a nossa própria energia e queremos investir nisso” e foi nesse sentido que foi criada a Abiape. Foi criado um canal e o governo entendeu.

Agência CanalEnergia: Como vê o atual momento para a autoprodução de energia? Otávio Rezende: O governo tem manifestado intenção de investir em autoprodutores. Durante um período ele não tinha essa visão, estava mais preocupado coma oferta para o mercado cativo. Agora recentemente mudou. Acho que essa mudança de governo vai provocar uma mudança também no setor de energia, principalmente em relação ao financiamento dos projetos, provavelmente o BNDES não vai suprir toda a expansão.

É a hora que você precisa contar com grandes grupos fazendo investimentos para garantir a expansão. No fundo tanto faz, qual a origem da energia, energia entrando no sistema é bom para todo mundo. Eu sou autoprodutor, estou entrando e não está consumindo tudo e está aliviando todo o sistema.

Agência CanalEnergia: Como vê o financiamento para autoprodução? Otávio Rezende: Não é só para autoprodução. O setor elétrico é muito calcado no BNDES, acho que outra coisa que a tendência natural é que as taxas do BNDES se aproximem das taxas do mercado, não deve existir mais a diferença que existia no passado e com isso, outras fontes surgem naturalmente. O governo deve trabalhar um pouco mais na parte de regulação, para afastar o risco de mercado e atrair novos bancos, tem muito banco anunciando.

Energia, como é superintensivo em capital, você precisa de banco de fomento mesmo, o banco que era mais competitivo que tinha no mercado era o BNDES. Agora não é que não vá ter o BNDES, vai ter, só que junto com outra fonte. Vai ter que passar de novo o que tivemos no passado, indexação também em dólar, parte da energia vai ser indexada em dólar para poder atender ao banco que vai entrar no sistema. Acho que vão flexibilizar para todo mundo que vai investir em infraestrutura poder emitir debênture incentivada, a estrutura de capital também está se flexibilizando, poderá ter um leque de opções para e fazer a expansão.

Agência CanalEnergia: O senhor vê espaço para a entrada de renováveis na autoprodução? Otávio Rezende: O problema da renovável é que ela não é uma energia flat, é sazonal. Ela necessita de um complemento. Um dos assuntos que tem sido falados no governo é poder usar as hidrelétricas para estocar energia das eólicas para autoprodução. Naquele período que tem mais vento, gera mais, não consome tudo aquilo e depois usa essa energia que fica estocada no sistema. É um modo de dar atratividade para as fontes renováveis, que têm esse problema, não tem energia firme. A própria Votorantim está investindo em renováveis e tem outros grupos que estão estudando. Com um pouco mais de flexibilidade em regulação, acho que vão investir sim.

Para o mercado da autoprodução, seria necessário ter um mecanismo que permitisse isso. Acho que está sendo estudado. No passado isso já foi feito na época que a Petrobras não tinha gás para despachar as térmicas, ela quando tinha gás gerava e guardava a água e quando precisava ela estocava a água. Acho que é uma possibilidade que é bem viável, ajuda o sistema e temos que pensar em todas as oportunidades que tragam energia para a expansão.

Acho que vamos acabar com aquela referência de preço de leilão, do custo marginal de expansão, porque ele não tem nada a ver com preço do leilão, o preço do leilão é indicativo de uma concorrência, mas não é o custo final da energia, que é quando eu tenho o despacho térmico. Devem procurar um modelo de eficiência aonde a energia mais barata firme que entrar vai ser a prioritária.

Agência CanalEnergia: Como fazer com que o grande consumidor invista na autoprodução quando ele pode apenas comprar a energia no mercado livre? Otávio Rezende: A diferença é que quando a energia estiver muito cara e o mundo estiver produzindo energia mais barata, ele vai ter dificuldade de exportar. Ele como produtor está gerenciando o seu custo. Quando ele pensa em longo prazo, um projeto de dez anos ou mais, ele tem que levar isso em consideração. Se ele não ficar competitivo no Brasil, dá para exportar. Não está competitivo, não dá para exportar. Reconquistar o mercado não é rápido.

Agência CanalEnergia: Qual a sua visão para a autoprodução para os próximos anos? Otávio Rezende: O autoprodutor investe quando ele vê o custo marginal da expansão muito elevado em relação a necessidade dos preços da commodity de energia na sua atividade fim. O único modo de você travar esse custo é você investir parte do seu dinheiro em geração própria. Quando você está apontando com um custo marginal de energia, ele é sempre ascendente. O modo de você gerenciar o seu custo só tem um, é investindo. Se você tem em energia um fator relevante no seu custo de produção, o modo de você proteger a sua atividade é investir em energia. Principalmente quem trabalha com produtos que são commodities mundiais, competem com custos de energia de países mais eficientes.

Agência CanalEnergia: O senhor vê uma melhora do ambiente de negócios? Otávio Rezende: Tem que evoluir um pouco na questão da regulação em alguns riscos. Um dos riscos que já está sendo visto é o que não tem sentido ter em determinados momentos do ano um PLD tremendamente baixo. Se os nossos reservatórios viraram anuais e todo ano vai despachar térmica, não tem sentido, você em uma época desestocar a água muito barata, para três meses depois estar comprando água a um preço de térmica.

Essa época de PLD baratos tem que começa a acabar. Ter um sinal mais ou menos real do uso da energia, isso vai mudar um pouco o mercado, vai todo mundo querer começar a alongar o contrato. Ninguém vai querer ficar em contrato de um ano, vai ter mudanças. O custo de transmissão, eles não colocam corretamente na expansão esse custo. Tem que se discutir a competitividade: o autoprodutor é aquele que busca a competitividade ao seu negócio.

Falta o sinal do longo prazo para temas como gás e cogeração. É que estamos vivendo uma época que todo mundo está variando a manchete da semana e quando você está falando de ativos intensivos de capital você tem que pensar na manchete daqui a cinco, dez anos.