Distribuidoras sob pressão, mas com potencial de crescimento

Estudo da consultoria Accenture indica que executivos estão otimistas com o futuro do segmento de utilities diante do avanço das tecnologias

Da Agência CanalEnergia 
08/01/2019

DE SÃO PAULO (SP)

O segmento de utilities está sob forte pressão, mas com investimentos direcionados poderá sair desse momento revigorado e com perspectivas interessantes de crescimento. Essa é a principal conclusão de um estudo elaborado pela consultoria Accenture. A empresa ouviu 150 executivos do setor em mais de 25 países, inclusive o Brasil. A opinião de 94% é de que o crescimento de seus negócios de distribuição de eletricidade permanecerá sob forte pressão até 2025. Após esse período a expectativa é de que os ganhos possam crescer no período além de 2025.

Intitulado como Digitally Enabled Grid, o estudo relata que nos últimos anos as distribuidoras têm vivido um período difícil. Uma combinação entre pressão regulatória, o avanço de tecnologias disruptivas, operações mais complexas, demanda em baixo nível de crescimento e a mudança de perfil e comportamento do consumidor vêm reduzindo a lucratividade das empresas e desacelerando sua curva de crescimento.

Um sintoma desse problema, contou o Líder Global para o segmento de Utilities da Accenture, Matías Alonso, em sua passagem pelo país no final do ano passado, é que as empresas vêm perdendo seu valor de mercado. Nos últimos 10 anos houve uma queda de 50% no valor de mercado das empresas na Europa. “Houve a destruição de valor neste segmento para as companhias europeias em cerca de 50% do que valiam em 2008. Hoje estão avaliadas em 500 bilhões de euros contra 1 trilhão que somavam em 2008, antes da última grande crise”, apontou ele à Agência CanalEnergia.

O problema das empresas europeias representa o maior símbolo de uma era no ramo de distribuição. Isso porque aquele mercado é maduro e está em um estágio mais avançado da transição para o uso mais intensivo de tecnologia que é o futuro em termos globais. Dentre as características principais está o fato de a demanda não ter crescimento acentuado, estar baseada nos recursos distribuídos e descentralizados, bem como com um nível elevado de digitalização.

Em outras regiões, destacou o executivo, a situação não é a mesma enfrentada pela Europa, mas ressaltou que este será o futuro do segmento, pode demorar mais uma região do que em outra, mas será a realidade em grande parte dos mercados mundiais, sendo que o Brasil está nessa lista.

De acordo com o estudo, em termo globais, o aumento das fontes renováveis na modalidade de geração distribuída não está impactando a demanda total por eletricidade. Está exigindo investimentos massivos em novas conexões e reforço na robustez da rede. Tanto que as companhias vêm se preparando para essa nova realidade de olho em uma nova onda de serviços adicionais ao ‘novo consumidor’ serviços esses que não entram na regulação e que devem passar por uma maior expansão de sua representatividade no faturamento das distribuidoras.

Em outro estudo da consultoria, o Positively Charged,  a estimativa é de que com essas ações as empresas vejam a elevação da participação de serviços em seu valor total de algo próximo a 10% atualmente para 25% da receita. Mas, essa transformação exigirá um volume de investimento expressivo. Para tornar essas projeções possíveis serão necessários aportes de US$ 19 trilhões em distribuição e transmissão de energia até 2040.

“Apesar do avanço da tecnologia, os setores de distribuição e de transmissão continuarão a ser relevantes em todo o mundo”, afirmou Alonso.

Essa expansão das tecnologias disruptivas seguem além da questão ambiental, a parte financeira. Alonso lembrou que há 20 anos o preço de módulos solares estavam na casa de US$ 70 por Watt, hoje esse custo é de US$ 0,30 por W, uma redução exponencial que á classificada como importante quando se analisa o interesse cada vez maior dos consumidores. As baterias, acrescentou ele, seguem o mesmo caminho assim como os movimentos que os veículos elétricos vão ter em um futuro nem tão distante assim já que países estão adotando políticas que restringem os veículos com motores a combustíveis fósseis.

“Toda essa transição está ocorrendo em diferentes níveis, em locais como Espanha, Reino Unido, Dinamarca começa a tomar forma. Na Alemanha a transição já está em andamento”, relatou. “Na Noruega mais de 50% das atuais vendas de veículos novos já são ou híbridos ou totalmente elétricos”, lembrou.

Com todo esse ambiente as empresas trabalham para transformar seu core business no futuro saindo do modelo tradicional para um outro onde há a expectativa de impulsionar o valor de mercado que esteve retido com as operações tradicionais desse mercado. Aqui no Brasil uma das empresas que indicaram para esse caminho é a Enel quando apresentou a nova marca para a concessionária de distribuição na cidade de São Paulo que por mais de 30 anos foi a Eletropaulo. Uma das metas da companhia e promover o aumento da rentabilidade por meio da oferta de serviços aos consumidores da área de concessão recém-adquirida.

Mas essas mudanças não afetam apenas as distribuidoras, geradoras também enfrentam uma nova concorrência no mercado já altamente competitivo. Empresas de outros segmentos, os novos entrantes de grande porte são verificados em todo o mundo. Inclusive, empresas de óleo que veem a expansão da importância da energia elétrica no mundo do futuro em detrimento do petróleo estão investindo em fontes renováveis.

Agora, disse o executivo da Accenture, a questão que fica é como pagar pela infraestrutura de distribuição de energia com a saída de consumidores da rede ante a necessidade de se manter essa rede que tem um papel importante atualmente e assumirá outro papel com o avanço das redes do futuro. De qualquer forma, finalizou ele, o aumento da concorrência sempre é bom, as empresas mostram que podem ser mais eficientes para serem competitivas e isso traz benefícios para o sistema como um todo.