Abel Holtz, consultor: Nosso Setor na UTI do SUS

O paciente chegou para atendimento na unidade com os sinais vitais aparentemente inalterados, mas, sintomas de graves problemas aliados à obesidade estavam à vista

Abel Holtz Artigos e Entrevistas
20/03/2017

Não precisava ter “bola de Cristal” para perceber que haveria sobreoferta de energia elétrica quando se percebia que, no governo anterior, a economia se “desmilinguia” e a demanda cairia. Mas, a regra vigente obriga ao setor considerar que haverá constante crescimento econômico como previsto no planejamento do setor e a demanda tem que ser atendida pelos agentes do setor. Esta obrigação implica ainda que as distribuidoras tenham que prever qual será a demanda e comprar em leilões a energia elétrica para atendê-la baseados nas informações recebidas. Dai a sobreoferta porque a economia foi ao fundo do poço.

O crescimento ufanista, apesar de indicativo no planejamento do setor, levou as distribuidoras a participar de leilões com compromissos de compra de energia futura advinda de novos empreendimentos. Cabe refletir sobre o fato de que se não houvesse a compra garantida pelos leilões os empreendedores não iriam investir em novas usinas e a demanda futura poderia não ser atendida e caso houvesse demanda teriam que ser acionadas as térmicas emergenciais para atendê-la. Aí a “bola de cristal” teria que ter indicado o evento. O risco fica com quem hoje está com sobreoferta. E agora, o que fazer com o excedente sem judicializar se ao mesmo tempo se sinaliza com a cobrança de tarifas amarelas.

Mas, o que esta claro na distribuição não é só o que ocorre no setor. A ultrassonografia feita mostra que internamente ao corpo alguns sintomas indicam que o paciente terá que sofrer um tratamento mais aprofundado para assegurar uma saúde no longo prazo.

No setor de geração há limitações para novos investimentos dado a preços e limitações ambientais. Na transmissão além dos problemas de atrasos na emissão de licenças ambientais em razão de legislações dispares no seu caminhamento, há problemas com IPHAN, há RAP’s que se tornaram inadequadas dado aos atrasos, indenizações de ativos ainda não reembolsadas, etc.

Quanto às hidrelétricas além das limitações ambientais, têm problemas com terras demarcadas, lhes são imputados custos sociais – de obrigação do estado - que ao longo da construção se tornam custos do empreendimento, e por fim há atrasos nas linhas de interconexão que impedem a venda da energia além daquela destinada ao mercado cativo, parcela de geração que de fato viabiliza a modicidade tarifária.

As termelétricas nucleares apesar de termos duas funcionando, a terceira unidade esta em construção há mais de 40 (quarenta anos), as novas que estão sendo visualizadas construir, mas, até agora nem foram definidos os locais exatos para sua construção, nem se sabe se serão construídas. Aquelas térmicas a gás natural, como não operam na base – ou seja, de forma continua - têm que esperar a ordem de acionamento, em razão deste fato, não podem ter contratos do combustível de longo prazo que teriam preços mais em conta e energia mais barata. Além disso, como têm que arrefecer suas máquinas precisam de agua e, com as mudanças climáticas, ou estão no litoral para uso da agua do mar, ou têm que pagar taxas extras para ter acesso à agua que consomem no arrefecimento e se transformam em vapor e vão aos céus.

Ainda com relação às termelétricas aquelas a carvão dado a “comprometimentos” com o clima que elevam os custos de implantação, não são competitivas, mas são importantes para operação da base. As de biomassa além da intermitência dado a safra do combustível há momentos que é mais rentável vender açúcar que produzir energia elétrica, tornaram-se pouco competitivas. No caso daquelas que utilizam os resíduos sólidos há um enorme problema logístico para levar o combustível até elas, além de necessitarem de uma parcela de gás natural para desumidificar os resíduos, e cuidados ambientais que elevam o custo da energia produzida pela necessidade de descarte do material queimado. Podemos ainda listar aquelas que utilizam raspas de madeira ou de florestas dedicadas ao fornecimento do combustível que apesar de serem viáveis a nossa experiência ainda é pequena e os ambientalistas ainda observam.

Agora as eólicas dependem de ventos que aqui no nosso País têm sido generosos, mas há que se ter uma cadencia de implantação que assegure contratos com fabricantes para a permanência deles para a produção dos componentes. As solares estão iniciando sua presença na geração de energia em nosso País e com os arroubos da geração distribuída deverão se desenvolver e criar em curto prazo nova necessidade de ajuste.

O ajuste diz respeito a reestruturação das tarifas pela a ampliação da geração fotovoltaica em geração distribuída que poderá exigir uma nova estrutura tarifaria para incentivar seu desenvolvimento tendo como contrapartida um incremento em outras classes tarifarias, para que não haja perda sensível no faturamento das distribuidoras, que mesmo assim, vão ter que cobrar pela disponibilidade de energia para back-up e manutenção da rede para atendimento à área de concessão.

Se não bastasse tudo que foi identificado cabe ainda buscar soluções para um problema que foi resolvido no passado de forma ditatorial – o momento de então permitia – que o regramento operacional das hidrelétricas binacionais quanto a sua operação e comercialização da energia produzida problema este que já se coloca para a binacional de Itaipu e certamente se aplicaria as binacionais com a Bolívia- HPP do Madeira - e com a Argentina – Panambi/Garabi.

Quanto ao financiamento dos empreendimentos recentemente o BNDES diminuiu sua participação na composição do “funding” dos projetos e os empreendedores terão que compor com a participação de bancos privados, com juros pouco competitivos como aqueles praticados no mercado, significando dizer que a energia produzida de agora em diante não terá preços competitivos. Os investidores terão também que ampliar seu risco ao colocar recursos próprios de tal sorte que pode tornar o negocio pouco atrativo em relação a outros empreendimentos.

Finalizando, o paciente depois que tiver todos estes problemas confirmados por exames mais detalhados e mapeada a profilática irá ter que rever o modelo de vida para trazer melhorias a sua saúde, evitar a obesidade, e poder voltar à segurança do desempenho de forma saudável.

Abel Holtz é engenheiro e empresário estuda e desenvolve trabalhos na área de concessões particularmente no setor elétrico.